Três situações em que a bola da Copa deu lugar à política mundial

A Copa do Mundo termina neste final domingo, quando a França, uma tradicional força do futebol mundial, e uma surpreendente Croácia se enfrentam em Moscou para definir quem será o campeão. Os gauleses querem repetir a história, 20 anos depois do título conquistado em 1998. E os croatas, que estão fazendo a melhor campanha da história, sonham em entrar no seleto grupo dos campeões mundiais.

E, apesar de a Fifa não querer misturar futebol com política, pelo menos em três vezes isto ficou evidente na Rússia: nas comemorações da vitória da Suíça contra a Sérvia, na primeira fase; após a vitória da Croácia contra a anfitriã Rússia, nas quartas de final; e nas equipes francesa e belga, que estão entre as quatro melhores do mundo e são, em boa parte, formadas por imigrantes ou filhos de imigrantes.

Croácia: Ucrânia e neonazismo

Uma polêmica envolveu a Croácia, país que fez parte da ex-Iugoslávia. Após a vitória, por pênaltis, contra a Rússia, nas quartas de final, o zagueiro croata Domagoj Vida – autor de um dos gols e o observador técnico, Ognjen Vukojevic, postaram um vídeo em que diziam: “Viva à Ucrânia”. Este acabou sendo expulso da delegação croata. Os dois jogaram juntos pelo Dínamo de Kiev, um time popular da capital ucraniana.

O vídeo foi encarado como uma provocação à Rússia, que não tem relações muito amigáveis com a Ucrânia. No final de 2013, o então presidente da Ucrânia, Victor Yanukovych anunciou a decisão de não assinar um acordo de livre comércio com a União Europeia, preferindo dar prioridade ao relacionamento com a Rússia. 

Milhares de pessoas foram às ruas para protestar contra a decisão do governo de Kiev. A repressão foi violenta. Mais de cem pessoas foram mortas e outras 1.200 ficaram feridas. A revolta se agravou no início do ano seguinte, forçando-o a fugir em fevereiro para a Rússia. 

Dias depois, o presidente russo Vladimir Putin ordenou a invasão da península da Crimeia com a intenção de proteger os russos étnicos que viviam na região. Um “referendo” patrocinado pelos russos garantiu a integração da região à Federação Russa. O resultado foi condenado pela comunidade internacional. 

Ao mesmo tempo, os russos fornecem pessoal, recursos financeiros e materiais bélicos a rebeldes pró-Rússia no Leste da Ucrânia. Apesar de iniciativas diplomáticas e sanções econômicas à Rússia, o conflito continua. 

Mas a polêmica em que Vida e Vukolevic se envolveram não parou por aí. Eles foram acusados de serem simpatizantes de movimentos nazifascistas no Leste Europeu. O slogan “Glória à Ucrânia” foi usado nos anos 1930 como símbolo de resistência à União Soviética por grupos como a Organização dos Nacionalistas Ucranianos, uma organização antissemita e que flertava com o nazismo. E, durante um curto período de tempo, entre 1941 e 1945, um regime de extrema-direita, apoiado por Hitler, dominou a Croácia. 

Albânia e Kosovo não estão na Copa, mas dão o que falar

Dois países que nunca estiveram em uma Copa do Mundo estiveram no centro da polêmica da vitória da Suíça sobre a Sérvia por 2 a 1: a Albânia e o Kosovo. Os gols suíços foram marcados por Shaqiri e Xhaka, que comemoraram fazendo o sinal da águia, o símbolo da bandeira albanesa. Isto irritou muito os sérvios, que consideraram o gesto como uma provocação. 

Shaqiri e Xhaka têm raízes no Kosovo, um país que proclamou a independência da Sérvia em 2008, apesar desta não reconhecê-la. O primeiro e a família do segundo, ambos da etnia albanesa, fugiram da guerra que se seguiu à fragmentação da ex- Iugoslávia, nos anos 90. A minoria albanesa-kosovar foi muito perseguida a partir dessa época. 

A Sérvia instituiu uma nova Constituição em 1989, revogando a autonomia do Kosovo. A reação da região veio pouco tempo depois. Os líderes albaneses organizaram um referendo em 1991 que declarou a independência do país. Ninguém a reconheceu. A Sérvia, então, adotou medidas repressivas contra a minoria, causando profundas revoltas. 

A situação piorou em 1998, quando a Sérvia realizou uma brutal campanha na região. Massacres e expulsões de pessoas foram a marca desse período. Pelo menos 800 mil pessoas da etnia albanesa foram obrigadas a fugir, entre elas Shaqiri e a família de Xhaka. 

A diplomacia fracassou ao tentar levar a paz à região. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) foi obrigada a intervir militarmente na região em 1999. Os sérvios foram obrigados a retirar suas forças militares e policiais da região. No mesmo ano, as Nações Unidas passaram a administrar o território, enquanto não havia uma definição sobre a situação do território. 

Negociações para definir a situação de Kosovo começaram em 2005, mas não houve um consenso entre a Sérvia e o Kosovo. Em 2007, as Nações Unidas emitiram um relatório dando aval para a independência. Ela foi proclamada no ano seguinte. Mas a Sérvia não deixou por menos: questionou a legalidade do ato no Tribunal Internacional da Justiça. A decisão a favor do Kosovo veio em 2010. 

Apesar de ser reconhecido por mais de 110 países, a Sérvia continua rejeitando a independência da ex-província. Negociações intermediadas pela União Europeia, desde 2013, tentam por fim ao impasse. A intenção é que a minoria sérvia possa ter sua própria polícia e tribunais. Mas o acordo depende da ratificação pelo parlamento dos dois países. 

Os filhos de imigrantes que movem a Bélgica e a França

Os grupos anti-imigração vêm ganhando força na Europa e ajudaram a colocar movimentos populistas no poder em vários países do continente, entre eles a Itália. Mas uma realidade que a Copa mostrou é que dois dos países que chegaram à etapa final da Copa do Mundo — a França e a Bélgica — são reforçados por filhos de migrantes. 

A seleção belga, pilotada pelo técnico espanhol Roberto Martinez, tem dez jogadores que são filhos de imigrantes do Congo, Marrocos, Portugal, Martinica, Mali, Sérvia e Kosovo. Entre eles, está Lukaku, o craque do time, e que já marcou quatro gols. 

Os imigrantes só deram um toque a mais para a multiculturalidade belga. O país tem três línguas oficiais. Ao Norte, na região de Flandres, se fala o holandês. Ao Sul, na Valônia, o francês. E em uma pequena parte do Leste predomina o alemão. 

Lukaku, o craque da Bélgica, é filho de congolesesJonathan Campos/Gazeta do Povo

A França, que neste domingo disputa o título mundial contra a Croácia, vai além da Bélgica. Dos 23 jogadores convocados pelo técnico Didier Deschamps, apenas quatro não são filhos de imigrantes. A maioria dos jogadores tem pais que vieram da África ou de outros países da Europa.

É uma situação que vem se expandindo desde 1998, quando a França conquistou seu primeiro título mundial. Naquela ocasião, o algoz do Brasil foi o craque Zinedine Zidane, filho de argelinos.

Apesar do sucesso nas quatro linhas, tem político francês se incomodando com essa situação. Marine Le Pen, líder do partido Frente Nacional (direita nacionalista) e candidata derrotada à presidência em 2017, diz que não se sente representada por essa equipe. 

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