Software detecta plágio descobre fonte de inspiração de Shakespeare

Por anos, estudiosos vêm debatendo o que teria inspirado os escritos de Shakespeare. Agora, com ajuda de um software usado normalmente por professores para descobrir se os alunos copiaram seus textos, dois escritores descobriram um manuscrito nunca publicado que acreditam ter sido consultado pelo bardo de Avon para escrever “Rei Lear”, “Macbeth”, “Ricardo III”, “Henrique V” e outras sete peças.  

A notícia atraiu a atenção dos shakesperianos.  

“Se ficar provado que é o que eles dizem, teremos uma descoberta única nesta geração – ou em várias gerações”, diz Michael Witmore, diretor da Biblioteca Folger Shakespeare, de Washington, D.C.  

As descobertas foram feitas por Dennis McCarthy e June Schlueter, que as descrevem em um livro publicado em 16 de fevereiro pela editora acadêmica D.S. Brewer e pela Biblioteca Britânica. Os autores não estão sugerindo que Shakespeare plagiou, mas que ele leu e se inspirou em um manuscrito intitulado “A Brief Discourse of Rebellion and Rebels” (“Um Breve Discurso sobre Rebeliões e Rebeldes”, em tradução livre), escrito no final dos anos 1500 por George North, uma figura sem muita importância da corte da rainha Elizabeth, que foi embaixador na Suécia.  

Dennis McCarthy, um pesquisador que, junto com um colega, sugere que Shakespeare se inspirou em uma obra nunca publicada para escrever clássicos como MacbethCODY O’LOUGHLIN/NYT

“É uma fonte que está sempre aparecendo. Afeta a linguagem, modela as cenas e, de certa forma, realmente influencia até mesmo a filosofia das peças”, explicou McCarthy, um estudioso autodidata de Shakespeare, durante uma entrevista em sua casa em North Hampton, em New Hampshire.  

Ao rever o livro antes de sua publicação, David Bevington, professor emérito de Humanidades da Universidade de Chicago e editor de “The Complete Works of William Shakespeare (7th Edition)”, chamou a descoberta de “revelação” pelo grande número de correlações com as peças, eclipsada apenas pelas crônicas de Holinshed e Hall e pelo livro “Vidas Paralelas”, de Plutarco.  

Martin Meisel, professor emérito de Literatura Dramática da Universidade Columbia, disse em outra avaliação que o livro tem “argumentos impressionantes”. Ele afirmou que não há dúvida de que o manuscrito “deve ter ocupado algum lugar na mistura da paisagem mental de Shakespeare” enquanto ele escrevia as peças.  

McCarthy se apropriou de técnicas decididamente modernas para preparar sua evidência, utilizando o WCopyfind, um software de código aberto usado para descobrir plágios, que encontrou palavras e frases em comum no manuscrito e nas peças.  

Na dedicatória de seu manuscrito, por exemplo, North exorta aqueles que se veem como feios a se esforçar para serem bonitos interiormente, para desafiar a natureza. Ele usa uma série de palavras para argumentar, incluindo “proporção”, “vidro”, “recurso”, “formoso”, “deformado”, “mundo”, “sombra” e “natureza”. No solilóquio de abertura de Ricardo III (“Este é o inverno do nosso descontentamento…”), o tirano corcunda usa as mesmas palavras quase na mesma ordem para chegar à conclusão oposta: de que como é exteriormente feio, vai agir como o vilão que parece ser.  

“As pessoas não percebem como essas palavras são raras. E ele continua falando, palavra após palavra. É como um bilhete de loteria. É fácil conseguir um número em seis, mas não todos os números”, afirma McCarthy.  

Tecnologia para estudar a literatura

Os estudiosos já usam técnicas de computador na área de Humanidades há décadas. A maioria deles, no entanto, escolhe palavras como artigos e preposições para criar a “assinatura digital” de um escritor, que pode ser usada para identificá-lo como autor ou coautor de outro trabalho, em vez de utilizar as comparativamente raras para localizar uma fonte.

Para usar o software que detecta plágio, McCarthy se inspirou no trabalho de sir Brian Vickers, que utilizou uma técnica parecida em 2009 para identificar Shakespeare como coautor da peça “Eduardo III”. Apesar de o livro ter sido recebido de maneira favorável, as técnicas estatísticas usadas ainda não foram submetidas a uma revisão rigorosa por outros estudiosos no campo das Humanidades digitais.  

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Dennis McCarthy usou um software de plágio para comparar as obras de Shakepeare e o manuscrito de George NorthCODY O’LOUGHLIN/NYT

Essas técnicas podem apenas ser a “cobertura do bolo”, segundo Witmore, que examinou brevemente uma cópia do livro. “No geral, permanece sendo um argumento literário, não estatístico.” O livro afirma que Shakespeare não apenas emprega as mesmas palavras que North, mas em geral as usa em cenas sobre temas parecidos e utiliza até os mesmos personagens históricos. Em outra passagem, North usa seis termos para cachorros, do nobre mastiff ao humilde vira-lata e o “trundle-tail” (rabo encaracolado), para afirmar que entre os humanos, assim como entre os cachorros, existe em uma hierarquia natural. Shakespeare usa essencialmente a mesma lista de cachorros para argumentar de maneira parecida em “Rei Lear” e “Macbeth”.  

Para garantir que North e Shakespeare não estavam usando fontes iguais, McCarthy colocou as frases na base de dados Early English Books Online, que contém 17 milhões de páginas de quase todos os livros publicados em inglês entre 1473 e 1700. Ele descobriu que quase nenhum outro trabalho contém as mesmas palavras em passagens do mesmo tamanho. Algumas delas são especialmente raras; “trundle-tail” aparece apenas em um único outro livro antes de 1623.

O manuscrito de North 

McCarthy descobriu a referência ao manuscrito de North on-line em um catálogo de um leilão de 1927, que notava que seria “extremamente interessante” comparar certas passagens com Shakespeare. Ele e Schlueter exploraram bibliotecas e arquivos por anos antes de conseguir a ajuda de um detetive de manuscritos, estudioso de documentos raros que o encontrou na Biblioteca Britânica, que havia comprado o original em 1933. (O manuscrito estava catalogado de maneira obscura, o que fez com que fosse difícil encontrá-lo.)  

Em 1576, North morava em Kirtling Hall, perto de Cambridge, na Inglaterra, o estado do barão Roger North. Foi ali, segundo McCarthy, que ele escreveu esse manuscrito, ao mesmo tempo em que Thomas North, talvez um primo de George, estava ali, possivelmente trabalhando em sua tradução de Plutarco.  

O manuscrito é uma crítica ácida aos rebeldes, argumentando que as rebeliões contra um monarca são injustas e condenadas ao fracasso. Apesar de Shakespeare ter uma posição mais ambígua sobre o assunto, McCarthy diz que ele claramente imitou o tratado de North no tema e nos personagens. 

Um dos mais interessantes é Jack Cade, que liderou uma rebelião popular fracassada contra Henrique VI em 1450. Shakespeare descreve os dias finais de Cade em “Henrique VI, Parte 2”, no qual ele diz que estava faminto e comendo grama, antes de ser finalmente pego e arrastado pelas ruas pelos calcanhares, com seu corpo deixado para ser comido pelos corvos. Há tempos os estudiosos achavam que Shakespeare havia inventado esses detalhes, mas todos eles estão presentes em uma passagem do “Discourse” de North, na qual ele cita Cade e dois outros rebeldes famosos. McCarthy e Schlueter argumentam que Shakespeare usou esses detalhes para fazer de Cade a personificação dos três.  

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McCarthy e seu co-autor não estão sugerindo que Shakespeare plagiou, mas sim que ele leu e foi inspirado por um manuscrito intitulado “Um Breve Discurso sobre Rebelião e Rebeldes”CODY O’LOUGHLIN/NYT

Cade é um personagem sem muita importância, mas McCarthy argumenta que o “Discourse” de North pode ter inspirado um dos personagens mais icônicos de Shakespeare, o Bobo de “Rei Lear”. Ele mostra a passagem memorável em que o Bobo e Lear estão perdidos em uma tempestade, e o Bobo recita uma profecia que atribui a Merlin.  

Estudiosos se debruçaram por anos sobre o que ele recita, que não parece bater com qualquer profecia conhecida de Merlin. Em seu livro, no entanto, McCarthy e Schlueter alegam que a passagem foi inspirada por uma versão da profecia de Merlin que North inclui em seu “Discourse” para apresentar uma visão distópica do mundo “virado de cabeça para baixo”. McCarthy e Schlueter acreditam que essas linhas podem ter inspirado alguns temas de “Rei Lear” e mesmo o personagem do Bobo.  

Apesar de concordar que a passagem influenciou a cena de “Rei Lear”, Bevington adverte contra uma leitura excessivamente expansiva, mostrando que esses assuntos também constavam de trabalhos contemporâneos, como o “Elogio da Loucura” de Erasmo. Qualquer que seja sua influência, segundo Witmore, a descoberta sugere que apesar de estudiosos terem examinado exaustivamente fontes impressas, pode haver outros manuscritos não publicados que inspiraram o bardo e ainda precisam ser descobertos.  

McCarthy já está planejando novos volumes baseados em técnicas eletrônicas, na esperança de apresentar mais descobertas que elucidariam o modo em que Shakespeare escreveu suas peças.  

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