Heróis de atentado interpretam a si mesmos em filme de Eastwood

Clint Eastwood aprendeu uma lição valiosa quando assumiu o papel de Clint Eastwood em um episódio de 1962 do sitcom equino “Mister Ed”.  

“Foi ali que eu me toquei que não queria pensar demais; comecei a fazer uns questionamentos que nem deveria, tipo, ‘O que o meu eu verdadeiro faria nessa situação?’. A coisa mais difícil para um ator profissional é encarnar a si mesmo. A maioria se esconde atrás dos personagens e nem sabe direito quem é”, conta o astro.  

Por isso, quando o cineasta escalou Spencer Stone, Alek Skarlatos e Anthony Sadler no papel de si mesmos em seu novo filme, “15h17 – Trem para Paris” (confira o trailer no fim da matéria), que mostra como três amigos descobrem um ataque terrorista em um trem que segue rumo à França, em 2015, não permitiu que tivessem aulas de interpretação. “Ele disse que era melhor não, porque aí ia ficar claro que a gente estava interpretando. Não queria nenhuma influência de Hollywood”, explicou Stone.  

Stone, piloto da Força Aérea na época, e Skarlatos, especialista da Guarda Nacional em Oregon voltando de uma missão no Afeganistão, estavam em férias na Europa com Sadler, amigo de infância dos dois, que estudava Cinesiologia. Um homem com armamento pesado abriu fogo no trem em que se encontravam, mas os três, com a ajuda de outros passageiros, conseguiram rendê-lo. Todos receberam a Legião de Honra, maior honraria francesa.  

“15h17 – Trem para Paris”, que estreia nesta quinta-feira (8) no Brasil, é o terceiro filme em sequência que Eastwood faz baseado em fatos recentes. Antes disso, registrou o “milagre do Hudson”, realizado pelo piloto Chesley B. Sullenberger III, em “Sully” e a vida do membro da força especial SEAL, Chris Kyle, em “Sniper Americano” – mas também não gosta de pensar muito no assunto. “Nunca planejo nada. Já tem coisa demais para a gente pensar nessa vida. Quando faço um filme, deixo que as coisas se ajeitem sozinhas”, revelou em entrevista telefônica recente.  

Os dois primeiros contaram com atores experientes. Já “15h17 – Trem para Paris” faz parte da longa tradição de heróis interpretando a si mesmos na telona, que inclui o jogador de beisebol Jackie Robinson em “The Jackie Robinson Story” (1950) e o veterano da Segunda Guerra Mundial Audie Murphy revivendo suas experiências em “O Regresso do Inferno” (1955).  

Os protagonistas do novo filme conheceram o diretor quando este lhes entregou o prêmio Hero Awards, na cerimônia do Guys Choice do canal de TV a cabo Spike, em 2016. “Nós resolvemos sugerir, meio na gozação, que ele fizesse um filme; a gente já estava escrevendo um livro na época e não queria desperdiçar a oportunidade. Ele só disse: ‘Nunca se sabe. Mandem uma cópia para mim'”, relembra Sadler.  

Depois que Eastwood aprovou a história inspiradora e Dorothy Blyskal a transformou em roteiro, o diretor partiu para os testes de seleção de elenco. Stone, Skarlatos e Sadler sugeriram, brincando, que deveriam ser interpretados por Chris Hemsworth, Zac Efron e Michael B. Jordan.

“Aí me veio uma ideia maluca: e se encarnassem a si mesmos? Tinham carisma para isso. Resolvi arriscar, por que não? Como poderiam me prejudicar a essa altura do campeonato?”, revela o cineasta veterano.  

Três semanas antes do início das filmagens, Eastwood pediu para se encontrar com o trio, principalmente para checar a fidelidade do roteiro, que já tinham discutido antes. Só que, dessa vez, estava com uma câmera, pediu a eles que encenassem os eventos e lhes ofereceu a chance de interpretarem a si mesmos. “Não tínhamos nem feito piada a respeito, de tão remota que parecia a possibilidade, mas é claro que, assim que ele ofereceu, nós aceitamos. Quem tem coragem de dizer não a Clint Eastwood?”, conta Skarlatos que, como os dois amigos, mal se lembra de ter participado da peça da escola.

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Iniciantes

Stone duvidou do acerto da decisão no primeiro dia de filmagem, em meados de 2017. “Olhei de lado e ali estava Clint Eastwood. Parecia que eu estava em um episódio de ‘The Twilight Zone’, juro. Aí fui muito mal nas primeiras tomadas, mas logo em seguida me toquei de que, uma vez que tinha concordado, teria que dar um jeito de segurar a onda e ir até o fim. Aí a coisa melhorou.” 

O clima tranquilo e despojado dos sets de Eastwood são famosos por ajudarem a acalmar os nervos dos astros incipientes. “Acabei virando especialista em anti-ansiedade. Nos velhos tempos, quando comecei fazendo pontas, nos anos 50, o diretor assistente vinha tocando uma sineta e gritando, ‘Silêncio!’, mesmo se já estivesse tudo quieto. Eu não quero deixar ninguém mais nervoso; prefiro criar uma situação para deixar a pessoa à vontade.”  

As instruções de Eastwood são bem simples, relata Skarlatos, que contou com companheiros experientes como Jenna Fischer (“The Office”) no papel de sua mãe e Judy Greer (“Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros”) como a mãe de Stone:

“Falava conosco como conversava com os outros atores, o que, em termos de direção, não tinha muita instrução. Só aconselhava a gente a fazer como se realmente estivesse passando pela situação. Ele deixava a gente fazer o que quisesse, o que é meio estranho, já que não somos profissionais e não temos a mínima ideia”. 

Carreira

Ou pelo menos não eram até agora: os três pretendem seguir carreira no cinema. (Stone e Skarlatos deram baixa nas Forças Armadas.) “Se há uma chance, claro, por que não? Já estou no clima total de Hollywood, me registrei em uma grande agência, a UTA, e agora estou torcendo para deslanchar”, revela Stone.  

Os novatos receberam até conselhos do diretor. “Depois que terminaram as filmagens, aconselhei os três a fazerem um curso de interpretação. Vai pirar a cabeça deles um tempo, mas depois melhora”, diz Eastwood.

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Em relação ao próprio futuro, o cineasta prefere se manter aberto. A primeira vez que se postou atrás das câmeras foi por um breve período, quando o diretor Don Siegel, supergripado, rodava “Perseguidor Implacável”, em 1971. “Pensei em tentar a sorte um tempo, pelo menos até que chegasse o dia em que olhasse para a tela e não tivesse vontade de fazer mais nada. Acho que não cheguei lá ainda, mas nunca me senti entediado”, afirma Eastwood.  

Aos 87 anos, ele tampouco descarta a volta à atuação, se surgir o papel certo. Embora tenha preferido não parecer em “15h17 – Trem para Paris”, o pôster de outro filme que dirigiu, “Cartas de Iwo Jima”, pode ser visto no quarto onde Stone passou a infância. “Melhor isso do que eu fazendo uma participação especial como Alfred Hitchcock. Não quis que minha presença distraísse da história.”  

No fim das contas, é como Dirty Harry diz em “Magnum 44”: “o homem tem que conhecer suas limitações.” Se pelo menos Eastwood tivesse descoberto isso antes de aparecer em “Mister Ed”. “Acho que não foi um exemplo primoroso de atuação, não, mas a verdade é que faz um tempão que vi pela última vez”, completa com uma risada.  

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