Crise migratória de 2015 faz a rica Baviera mudar de posição política

Tudo parece estar bem na Baviera. As ruas são limpas, o desemprego é praticamente inexistente, os benefícios sociais são generosos e um senso de identidade vibrante existe em pequenas aldeias e grandes cidades: até os adolescentes às vezes vestem os trajes típicos para ir às baladas. 

No entanto, este é o novo centro de revolta na Europa, o mais recente campo de batalha para os populistas, ansiosos para derrubar tanto a chanceler Angela Merkel quanto a ideia de uma Europa liberal. 

Rica, religiosa e na fronteira meridional da Alemanha, a Baviera é um bastião conservador do país mais associado à política de migração de portas abertas da Europa, e o derradeiro prêmio em uma guerra cultural que viu o populismo minar o consenso no lado oriental dos 28 membros do bloco. 

Desde a crise da imigração de 2015, a direita nacionalista vem ganhando apoio na região, e os conservadores locais responderam com uma guinada brusca à direita. 

O número de requerentes de asilo chegando à fronteira terrestre da região é apenas uma fração do que foi há três anos, mas, recentemente, a União Social Cristã, aliada de longa data dos conservadores de Merkel, rebelou-se contra a chanceler. Exigindo uma fronteira mais rigorosa com a Áustria, ameaçou se retirar de seu governo. 

O populismo no coração da Europa 

O motim bávaro chamou a atenção de círculos conservadores ao Norte da fronteira, que observam de perto para ver se a estratégia funciona ou não. A Baviera se tornou um teste da forma de reconquistar os eleitores da direita nacionalista, mesmo que o preço seja a guinada à direita e o alinhamento com populistas de países vizinhos. 

Viktor Orban, o semiautoritário primeiro-ministro da Hungria, tem sido um hóspede regular de honra dos conservadores bávaros, assim como Sebastian Kurz, o chanceler da Áustria, que governa com uma coalizão com a direita nacionalista. Fala-se de “um eixo dos predispostos” que também inclui o novo ministro do Interior da direita nacionalista da Itália, Matteo Salvini. 

Markus Söder, o primeiro-ministro bávaro, fala do fim do “multilateralismo ordenado”, e ordenou que haja crucifixos em todos os prédios do governo estadual. Uma patrulha de fronteira da Baviera começou a atuar ao longo da divisa que supostamente está aberta às viagens entre países europeus. 

Alexander Dobrindt, o líder parlamentar da região em Berlim, prevê uma “revolução conservadora”. 

“O populismo chegou ao coração da Europa. Agora, você tem um grande partido europeu endossando o programa Orban de migração”, disse Timothy Garton Ash, professor de História Europeia na Universidade de Oxford. 

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A Baviera pode parecer uma região improvável para o populismo – afinal, quase um terço das grandes companhias alemãs tem sede na região, o desemprego é inferior a 3% e o crescimento econômico ultrapassou o de outras regiões nos últimos oito anos. 

Por ser um caldeirão de influências eslavas e do sul da Europa há séculos, a Baviera é também mais bem-sucedida que muitas outras regiões alemãs na integração de recém-chegados. Munique, por exemplo, é muito mais multicultural que Berlim. 

Como diz Wolfgang Jirschik, prefeito de Baierbrunn, uma aldeia no vale do Isar, perto de Munique: “Não há necessidade de recuperar a grandeza da Baviera; ela já está muito bem”. 

Mas, como na vizinha Áustria, a riqueza da região não a protegeu da poderosa narrativa populista que adotou uma atitude cada vez mais defensiva: que, apesar dos números em queda, a crise dos migrantes continua; que Merkel é a culpada; e que os imigrantes ameaçam as tradições, a prosperidade e a estabilidade que têm sido a espinha dorsal da identidade bávara. 

“Não tem a ver com a economia, mas mais com identidade e com uma máquina populista muito bem azeitada que está reescrevendo a história recente”, disse Gerald Knaus, diretor da Iniciativa de Estabilidade Europeia, um think-tank com sede em Berlim. 

Linha de frente da crise imigratória alemã 

No final de 2015, a Baviera estava na linha de frente da crise imigratória alemã, possibilitando a passagem dezenas de milhares de recém-chegados por dia ao longo de sua fronteira de 800 km com a Áustria, e ganhando elogios de todo o mundo pela humanidade e eficiência com que a burocracia e os voluntários trabalhavam para enfrentar o desafio. 

Os refugiados foram recebidos com aplausos em estações de trem; ginásios esportivos foram transformados em acampamentos improvisados; sopões eram tripulados por moradores locais. 

Mas, três anos depois, o clima mudou, particularmente em áreas próximas à fronteira onde o partido de direita nacionalista, a Alternativa para a Alemanha, ou AfD, se aproveitou da situação. 

“Nosso mundo perfeito foi ameaçado. As pessoas ficaram assustadas”, disse Hans Ruppenstein, 76 anos, membro de um clube de tiro local em Baierbrunn. 

Assim, a AfD, há muito associada com regiões economicamente deprimidas do antigo Leste comunista, encontrou terreno fértil em grande parte da Baviera católica, alimentando temores difusos da islamização e alertando contra o crime e o terrorismo dos migrantes. 

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Veja, por exemplo, Deggendorf, a cidade perfeita à beira do Danúbio, perto das fronteiras tcheca e austríaca. No final de 2015, seus moradores viram dezenas de milhares de migrantes passarem por ali; hoje, apenas cerca de 300 requerentes de asilo permanecem na cidade de 36 mil habitantes. 

Deggendorf tem pleno emprego e quase nenhum crime, mas registrou a maior votação da AfD na Alemanha Ocidental na eleição nacional de 2017. 

“Burca?”, perguntava um dos cartazes da AfD sobre uma foto representando três mulheres alemãs em trajes típicos. “Preferimos Borgonha!”. 

Katrin Ebner-Steiner, política local da AfD, gosta de zombar dos conservadores que se apropriam das políticas de seu partido. 

“A AfD está se manifestando”, disse ela recentemente, sorrindo contente, antes de acrescentar: “Os eleitores não são tolos. Eles conseguem distinguir entre a cópia e o original. ” 

Alvo óbvio para a direita nacionalista 

Em alguns aspectos, a Baviera é um alvo óbvio para a direita nacionalista. O nacionalismo vem mais facilmente para a população desse ex-reino orgulhoso que cultiva sua identidade distinta há centenas de anos. 

No século 19, resistindo ao domínio prussiano, o rei bávaro pagou aos casais para que se casassem em trajes tradicionais. Mais recentemente, o governo estadual em Munique criou um ministério para o “heimat” – termo que representa a pátria, o pertencimento e as raízes geográficas –, promovendo o folclore local e levando empregos e investimentos de centros urbanos para áreas rurais. 

Hitler iniciou sua carreira política em Munique, mas, como a Áustria, a Baviera conseguiu se distanciar dessa parte da história alemã. 

“O nacionalismo bávaro é uma forma tolerada de nacionalismo desde 1945. Você consegue contornar o tabu alemão do nacionalismo sendo bávaro”, disse Klaus Reichold, que dirige um instituto cultural em Munique e escreveu sobre o folclore local. 

A Baviera é mais consistentemente conservadora do que o resto do país. A União Social Cristã está no poder aqui desde 1957 e perdeu sua maioria absoluta apenas duas vezes em quase meio século.  “A cultura democrática não é tão desenvolvida aqui quanto é em outros lugares da Alemanha, onde os conservadores e os socialdemocratas se revezaram várias vezes no poder”, disse Reichold. 

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Os conservadores nunca tiveram problema para se afastar da direita: o famoso mantra de seu líder mais icônico do pós-guerra, Franz-Josef Strauss, era nunca permitir que um partido à direita dos conservadores fosse eleito. 

Isso também explica a estratégia atual das fileiras conservadoras para conquistar votos da direita nacionalista. 

Até agora, não está claro se a aposta valerá a pena ou se simplesmente ajudará a cimentar a base de apoio da AfD. Pesquisas de opinião sugerem que uma atuação mais dura em relação à segurança das fronteiras é popular, mas que as manobras políticas dos conservadores antes das eleições estaduais de outubro, não. 

“O fato de a AfD ganhar força em um momento de forte crescimento econômico é particularmente preocupante. O que vai acontecer então quando a economia abrandar de novo?”, questiona Jirschik, o prefeito de Baierbrunn. 

Jirschik se preocupa com a liberdade, a democracia e o consenso social, que teme estar enfraquecendo. Viu a solidariedade com os refugiados em 2015, o exército de ajudantes voluntários, a boa vontade, mas as memórias estão desaparecendo. 

“Quando percebo essas mudanças e essa nova linguagem, fico com medo. Quando vejo como isso aconteceu rapidamente em outros lugares, como nos EUA e na Polônia, eu me pergunto: será que pode acontecer aqui conosco?”. 

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