Como transformei minha mãe em estrela de Bollywood sem querer

Quando eu tinha 16 anos, comecei a fazer uns vídeos bobinhos em casa com uma filmadora de mão para postar no YouTube. Como qualquer millennial, estava em busca de aprovação digital, queria lacrar. Mostrei para a minha mãe e expliquei que o pessoal fazia aquilo para ganhar dinheiro; ela riu e me disse para arrumar um emprego de verdade. 

Para facilitar a aceitação dos meus planos de carreira, comecei a incluí-la nos meus quadros: fazíamos desafios de rap; posávamos de góticos. Até o meu nascimento reencenamos. Infelizmente ela se recusou a fazer o twerk

Consegui seu apoio – e, ao seu lado, quase oito milhões de visitas à minha página naquele ano. 

Em 2013, recebi um telefonema de uma produtora na Índia, dizendo que estava à procura de alguém para ser protagonista em uma série no horário nobre. “Aqui vamos nós. Finalmente Bollywood me descobriu”, pensei. 

Mas minha interlocutora foi bem clara. “Não, não queremos você; quem nos interessa é a sua mãe.” 

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Contei a novidade para ela, achando que jamais aceitaria. “Vou arriscar”, disse. 

Fiquei chocado. A mesma mulher que, meses antes, me deu a maior bronca por causa dos meus vídeos, estava disposta a fazer um teste para a TV. Ajudei-a a filmar e mandamos; meses depois, a produtora lhe ofereceu o papel. Ela pediu demissão do cargo de professora de Inglês em uma escola suburbana de Londres, foi para Mumbai e começou a trabalhar como atriz de Bollywood. Está lá há cinco anos e ficou conhecida por interpretar a Sra. Bhalla em um seriado chamado “Yeh Hai Mohabbatein”, ou “Isso é Amor”. Segundo um grupo que faz o acompanhamento da audiência de TV na Índia, é um dos cinco programas mais vistos no país, conquistando um público de milhões de pessoas. 

Bilhete premiado

É uma daquelas histórias de “bilhete premiado”, do tipo que a indústria do showbiz adora, mas a impressão que dá mesmo é a de que minha mãe fechou um ciclo. 

Shahnaz Rizwan nasceu nos anos 50, no tumultuado Paquistão pós-divisão. Era uma dos nove filhos de uma família muito pobre. Meu avô vendia rolos de filmes para os estúdios e, um dia, quando uma atriz-mirim desistiu de um longa, sugeriu minha mãe como substituta. Aos três anos, fez sua estreia no cinema. Ao longo da década seguinte, estrelou mais de trinta filmes paquistaneses em preto e branco; aos doze, sustentava a família inteira com o que ganhava. Era basicamente a Macaulay Culkin versão Karachi. 

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Na adolescência, porém, teve que parar de atuar porque começaram a lhe dizer que aquela não era profissão para uma jovem decente, que só as prostitutas eram atrizes. Ela desistiu então do cinema e rapidamente se esqueceu do estrelato, voltando à vida normal. 

Quando jovem, já adulta, foi a primeira mulher de seu bairro a andar de bicicleta. Hoje em dia o meio de transporte ecologicamente é muito elogiado e incentivado, mas, na época, para uma mulher sozinha, sem acompanhante masculino, era um escândalo. De novo, as pessoas a criticaram, chamando-a até de prostituta (parece que esse era o tema recorrente de sua juventude). 

Ela queria uma vida além das limitações de que se ressentia no Paquistão, por isso veio para a Inglaterra, nos anos 90, com minha irmã e eu a tiracolo, sem dinheiro, sem marido e sem conhecer ninguém. Meu pai só conseguiu se juntar a nós quatro anos depois. Enquanto isso, minha mãe assumiu todos os “empregos de verdade” possíveis, trabalhando de faxineira a costureira, passando pela função de operária. Acabou se formando em Inglês e, com o tempo, conquistou uma vaga de professora para ensinar outros imigrantes. 

Mas sempre foi artista. Quando eu era pequeno, organizava a realização de peças no nosso centro comunitário, que alugava por hora. Ela mesma escrevia, dirigia e produzia os espetáculos. O elenco não passava da reunião de seus filhos e os alunos lituanos a quem distribuía papéis como parte do curso que faziam. A trama da primeira, “Marido À Venda”, falava de uma esposa com tino para os negócios (interpretada por ela) que tenta vender o marido (interpretado por meu pai) para uma velha rica. Tenho certeza de que foi mais terapêutico para ela do que qualquer outra coisa. 

Deportação

Quando eu tinha oito anos, minha mãe recebeu uma carta de deportação, informando que teríamos que sair do país. Ela tinha um único objetivo: formar os filhos antes de sermos forçados a ir embora. Eu estudava noite e dia, e fiz inscrição para todas as bolsas de estudo possíveis. 

Enquanto investia na minha vida acadêmica, ela se engajou em um ano de protestos e batalhas legais. Todo fim de semana eu tinha que ajudá-la a distribuir panfletos de porta em porta, para reunir assinaturas em apoio aos direitos dos imigrantes – e conseguiu montar uma rede de base não só para si como para outros estrangeiros. Começou a organizar reuniões semanais no subsolo de um supermercado sul-asiático. Seu discurso em uma conferência chamou a atenção de um advogado, que se ofereceu para representá-la de graça. 

Depois de todo seu trabalho comunitário e procedimentos legais, conquistamos “o direito de permanência por tempo indeterminado”. Quando as Spice Girls lançaram seu terceiro álbum, já éramos cidadãos britânicos. 

Alguns anos depois, descobri o YouTube, e passava todo o tempo livre que tinha aprendendo a usar uma filmadora de mão usada – e a vida de repente ficou muito mais empolgante quando consegui fazer um vídeo de mim mesmo chamado “Twerk em público” e o compartilhei com o mundo. 

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Hoje, minha mãe decidiu se aposentar de seu trabalho na TV; quer passar mais tempo na Inglaterra com a família. Só que sua fama está interferindo nas minhas ambições. Se você digitar o meu nome no Google – não que eu já tenha feito isso! –, ele autocompleta com “Mawaan Rizwan, mãe”. 

Fama

Quando fui visitá-la na Índia, há uns dois anos, perguntei se sentia incomodada pelo peso da fama recém-conquistada, ao que ela respondeu: “Não sou famosa, Mawaan, só que agora tenho um montão de amigos.” 

Eu acho que ela está se virando bem. De fato, está usando a fama em vantagem própria: quando estávamos no aeroporto de Mumbai para o check-in, descobrimos que nossas malas estavam acima do limite de peso. Minha mãe só deu um sorrisinho maroto para a mulher da companhia aérea ao balcão – que percebeu quem ela era e quase teve uma síncope. No fim das contas, a equipe inteira começou a gritar. Funcionários e passageiros fazendo fila para pedir autógrafo, minha mãe posando para um milhão de selfies; ninguém se lembrou das malas. 

Quando era menino, vi minha mãe tornar o impossível possível na nossa vida; então, com alguns vídeos inocentes, fizemos o mesmo para ela, só que em uma escala muito maior que imaginávamos. 

O único problema agora é o meu pai. Outro dia quis que eu sentasse para conversar. “Você fez sua mãe ficar famosa. E eu?”. 

(Mawaan Rizwan, além de comediante, escreveu e protagoniza a peça “Juice”.)

©2018 The New York Times. Publicado com permissão. Original em inglês

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