Cigarros eletrônicos invadem escolas dos Estados Unidos

O aluno foi pego fumando um cigarro eletrônico três vezes antes de se sentar no escritório do vice-diretor da Escola de Ensino Médio Cape Elizabeth, no Maine, e envergonhadamente admitir o que naquele momento já era óbvio.

“Não consigo parar”, contou ele ao vice-diretor, Nate Carpenter. 

Então, Carpenter perguntou à enfermeira da escola se poderia conseguir um chiclete ou um adesivo de nicotina para ajudar o adolescente a passar o dia na escola sem violar as regras que proíbem os jovens de fumar cigarros eletrônicos. 

Os cigarros eletrônicos têm sido elogiados por seus produtores e por alguns especialistas de saúde pública como dispositivos que ajudam adultos a parar de fumar. Mas funcionários das escolas, que lutam para controlar uma explosão do uso desses equipamentos entre os alunos de ensino médio de todo país, temem que eles estejam criando uma nova geração de viciados em nicotina.  

Em seus quatro anos na Cape Elizabeth, Carpenter diz que não se lembra de ver um único aluno fumar um cigarro. Mas, de repente, os cigarros eletrônicos estão em toda parte. 

“É o nosso demônio. É a única coisa arriscada que você pode fazer na vida – com poucas consequências, na cabeça deles – para mostrar que é um pouco rebelde.” 

As escolas dizem que o problema surgiu sorrateiramente no último outono, quando os alunos voltaram às aulas com uma nova geração de dispositivos facilmente ocultáveis porque possuem um design mais fino e alta tecnologia. O mais popular, produzido pela Juul, uma empresa de San Francisco que recebe dinheiro de capital de risco, parece um pen-drive e se tornou tão onipresente que os alunos transformaram a palavra Juul em um verbo. 

Com gosto de frutas ou menta, esse equipamento produz pouca fumaça reveladora, o que faz com que seja possível até fumá-los na sala de aula. 

“Eles podem ser presos no colarinho ou na alça do sutiã e é só se inclinar e fumar de vez em quando. Quem vai perceber?”, pergunta Howard Colter, superintendente interino da Cape Elizabeth. 

Em geral, os cigarros eletrônicos são considerados mais seguros do que os tradicionais, mas são muito novos para que os pesquisadores possam entender os efeitos de longo prazo na saúde, o que torna a juventude de hoje o que os especialistas em saúde pública chamam “geração cobaia”. 

Trabalhadores das escolas e de saúde dizem que várias coisas, no entanto, estão claras: a nicotina é muito viciante, os refis dos equipamentos têm uma concentração maior de nicotina do que os cigarros normais e um corpo crescente de pesquisas indica que fumar cigarros eletrônicos está levando mais adolescentes a experimentar os cigarros normais.  

Ashley Gould, diretora administrativa da Juul, diz que os produtos da empresa se destinam exclusivamente aos adultos que desejam parar de fumar.  

“Não queremos que as crianças usem nossos produtos. Eles não só não são para crianças como não são para quem não usa nicotina”, afirma ela. 

Ela diz que as escolas e as indústrias de cigarros eletrônicos precisam trabalhar juntas para entender por que os adolescentes estão fumando cigarros eletrônicos e sugeriu que o estresse talvez seja a maior razão. Para isso, segundo ela, a Juul ofereceu às escolas um currículo que inclui exercícios de meditação de atenção plena para mantê-los longe dos dispositivos que a empresa vende. 

“Vimos a mesma estratégia vinda da Philip Morris com o programa We Card, e a avaliação é que essas coisas não funcionam”, explica Jennifer Kovarik, que administra programas de prevenção ao tabaco no condado de Boulder, no Colorado, sobre os esforços da empresa para manter seus produtos longe dos adolescentes.

“Se eles não quisessem que os jovens usassem o produto, os cigarros eletrônicos seriam vendidos em locais que só admitem maiores de 18 anos. Mas eles estão disponíveis nas Circle K-s em todo o país”, completa. 

Os cigarros eletrônicos liberam nicotina por meio de um líquido que é aquecido até se tornar vapor e depois inalado, deixando de lado o alcatrão, o combustível dos cigarros normais, que causa câncer. Mas os líquidos contêm aditivos como propilenoglicol e o glicerol que podem formar compostos carcinogênicos quando aquecidos.

O diacetil, uma substância química usada para dar sabor a alguns líquidos do cigarro eletrônico, tem sido relacionado à doença chamada de pulmão da “pipoca”, que causa cicatrizes e obstruções nas menores vias aéreas desse órgão.

Um estudo publicado no jornal Pediatrics em março descobriu aumentos substanciais nos níveis de cinco compostos carcinogênicos na urina de adolescentes que fumam cigarros eletrônicos. 

“O meu medo é estarmos viciando uma nova geração de crianças em nicotina, com risco potencialmente desconhecidos”, afirma o doutor Mark L. Rubinstein, autor principal do estudo e professor de Pediatria da Universidade da Califórnia, em San Francisco.

“Com os cigarros normais, estamos estudando há muito anos e temos uma ideia bem boa de quais são os riscos. Não conhecemos os riscos de inalar todos esses aromatizantes e corantes e o que já sabemos é bastante assustador”, continua. 

A indústria mostra um estudo britânico de 2016 que diz que fumar cigarros eletrônicos não leva não fumantes a se tornarem fumantes. Mas o estudo Monitoring the Future, de 2016, patrocinado pelo Instituto Nacional de Abuso de Drogas do governo federal, acompanhou estudantes que, no terceiro ano do ensino médio, nunca haviam fumado um cigarro e descobriu que, um ano depois, aqueles que usaram cigarros eletrônicos tinham uma chance quatro vezes maior de terem fumado cigarros normais.

Já outro estudo, apresentado em janeiro pela Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina, concluiu de maneira parecida que usar cigarros eletrônicos leva os estudantes a fumar cigarros normais, embora não determine se eles se tornaram fumantes habituais ou apenas experimentaram. 

As escolas e as autoridades locais endureceram as penalidades para os alunos pegos com dispositivos, suspendendo e até expulsando os jovens, e mandaram cartas aos pais pedindo que fiquem atentos a baforadas com cheiro de fruta e, como um superintendente escreveu, “canetas que não são canetas”. 

Recentemente, vários distritos escolares em Nova Jersey adotaram políticas que exigem que os alunos pegos com cigarros eletrônicos sejam testados para drogas, porque os dispositivos podem ser usados para fumar maconha. 

A pesquisa Monitoring the Future de 2017 sobre uso de drogas por adolescentes descobriu que 24 por cento dos alunos do terceiro ano do ensino médio relataram que fumam cigarros eletrônicos todos os dias, o que o estudo definiu como fumar cigarros eletrônicos em 20 ou mais ocasiões nos 30 dias anteriores, segundo Richard A. Miech, professor do Instituto de Pesquisa Social da Universidade do Michigan. 

Cinquenta e seis por cento relataram que fumam cigarros eletrônicos de uma a cinco vezes no mesmo período. Gregory Conley, presidente da Associação Americana de Cigarros Eletrônicos, que apoia o que chama de regulamentação “justa e sensível” sobre os cigarros eletrônicos, diz que esse número mostra que a maioria dos estudantes que fuma cigarros eletrônicos não se torna um viciado. “Não dá para usar a definição de dependência e aplicá-la a qualquer um que usa apenas cinco dias em um mês”, diz ele. 

As escolas dizem que, ao contrário dos adultos, a maioria dos alunos que fumam cigarros eletrônicos começa como não fumantes.  

“Tenho a mesma conversa com todos os alunos que pegamos fumando cigarros eletrônicos”, diz Scott Carpenter, reitor de disciplina da Escola de Ensino Médio Cumberland, em Rhode Island. “’Se eu te der um cigarro você vai fumar?’ E 100 por cento deles olham para mim como se eu fosse completamente maluco de até mesmo sugerir que eles fariam uma coisa dessas”, complementa. 

Em Millburn, Nova Jersey, um dos distritos escolares que agora exige que todos os estudantes pegos fumando cigarros eletrônicos sejam testados para drogas, os adolescentes dizem que os Juul começaram a aparecer em festas no ano passado, e no outono chegaram às escolas e aos jogos de futebol. Agora, os alunos publicam vídeos fazendo truques com o vapor nas redes sociais. 

Em uma lanchonete local onde os alunos mais velhos almoçam, uma dúzia de estudantes entrevistados disse que era fácil comprar o Juul on-line, em postos de gasolina ou lojas de conveniência, e adquirir refis nos corredores da escola. Nenhum deles admitiu ter um dispositivo, mas todos disseram que já experimentaram. 

Ryan Wenslau, de 18 anos, explicou que acha que fumar cigarros eletrônicos começa para a maioria dos estudantes como uma diversão ocasional, “alguma coisa para fazer”. Para aqueles que continuam, “não chamaria necessariamente de vício, mas é um hábito”. 

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