Aziz, nós tentamos avisá-lo | Gazeta do Povo

Em 1975, 42 anos antes de o comediante Aziz Ansari supostamente ter levado uma garota para seu apartamento e tentar fazer sexo com ela várias vezes, mesmo a moça tendo dito “na próxima” e “não quero me sentir obrigada”, Susan Brownmiller publicou “Against Our Will: Men, Women, and Rape” (“Contra a Nossa Vontade: Homens, Mulheres e Estupro”).  

“Toda violação é um exercício de poder, mas alguns estupradores se aproveitam da vantagem física. Às vezes, agem em um padrão emocional ou dentro de uma relação de dependência que gera uma estrutura hierárquica, autoritária por si só, enfraquecendo a resistência da vítima, distorcendo sua perspectiva e confundindo sua vontade.” 

O livro está disponível nas bibliotecas de todo o país desde sua publicação. 

Ansari devia ter uns sete ou oito anos, em 1991, quando um grupo feminista do Antioch College lutou para estabelecer a Política de Prevenção da Ofensa Sexual da faculdade, (conhecida informalmente como “as regras de Antioch“, ou, mais comumente, “as famigeradas regras de Antioch”) exigindo consentimento expresso em absolutamente todos os encontros de conotação sexual, e por volta de dez quando o “Saturday Night Live” fez gozação com as tais regras, em um quadro em que Shannen Doherty aparecia como estudante de “Estudos de Vitimização”. 

Também em 1991, Anita Hill testemunhou perante o Comitê Judiciário do Senado, dando detalhes do assédio sexual constante sofrido nas mãos do chefe, Clarence Thomas, que continua na Suprema Corte. Como Ansari, eu também tinha oito anos em 1991 e me lembro perfeitamente de minha mãe me explicando, na nossa sala de estar, o que tudo aquilo significava: “Por exemplo, um homem pode dizer: ‘Tenho um pênis grande e aposto que você gostaria que eu…’. Sabe como é.” E se interrompeu, enojada. 

Em 2008, Jessica Valenti e Jaclyn Friedman editaram a antologia “Yes Means Yes!: Visions of Female Sexual Power and a World Without Rape” (“Sim é sim!: visões do poder sexual feminino e um mundo sem estupro”), sete anos antes de Ansari lançar o próprio livro, “Modern Romance: An Investigation” (“Romance moderno: uma investigação“), no qual explora o namoro e o sexo na era digital. 

No verão de 2014, (talvez enquanto Ansari estivesse escrevendo seu livro) a Assembleia Estadual da Califórnia aprovou uma lei que previa “concordância consciente, prévia e voluntária para o engajamento em qualquer atividade sexual”, desencadeando um debate sobre a eficácia do “sim é sim” que consumiu a blogosfera durante meses. “Falta de protesto ou resistência não significa consentimento, como o silêncio também não”, dizia o projeto de lei. Publicações feministas abordaram a questão exaustivamente. Em outubro desse mesmo ano, Ansari foi ao programa “The Late Show With David Letterman” e se declarou feminista

Em 2015, dois anos antes de Ansari enfiar os dedos na boca de uma mulher que tinha acabado de lhe dizer “não, acho que não estou preparada”, segundo o próprio relato dela, divulgado anonimamente nesta última semana, Kate Harding publicou “Asking for It: The Alarming Rise of Rape Culture – and What We Can Do About It” (“Você pediu: a ascensão alarmante da cultura do estupro – e o que podemos fazer a respeito”), no qual descreve a violência sexual “não como ‘um erro’, mas uma decisão deliberada de tratar a outra pessoa como objeto”. 

No mesmo ano, Rebecca Traister, da New York Magazine, abordou a necessidade de ir além do consentimento e analisar os sistemas de poder em um artigo intitulado “The Game Is Rigged: Why Sex That’s Consensual Can Still Be Bad” (“Jogo manipulado: por que o sexo consensual ainda pode ser ruim”). 

Há uma tendência reflexiva, quando se trata de histórias de má conduta sexual como as acusações feitas a Ansari nesta última semana – incidentes que parecem ocorrer naquela vasta área imprecisa entre a violência e a dinâmica de poder distorcida –, de se falar que as regras sexuais mudaram. 

É verdade. 

A linha entre a sedução e a coerção mudou muito e mudou rápido nesses últimos anos (quiçá últimos meses). Quando eu tinha vinte e poucos, há uma década, o sexo era uma coisa meio confusa. “Não é não” era a única regra, sendo amplamente aceitável, nos mais diversos círculos sociais, que se desse em cima de alguém até que ele(a) concordasse em fazer sexo com você. (No cinema, isso ficou conhecido como “comédia romântica”.) 

O que não é verdade é a sugestão de que diálogos complexos sobre consentimento seja coisa nova, ou que os homens não tenham tido todas as oportunidades de se atualizar. 

Os livros, artigos, incidentes e perspectivas que mencionei não são, nem de longe, abrangentes, nem perfeitos, nem uma sucessão alinhada uns dos outros – mas fazem parte de um volume extenso de estudo e ativismo e estão aí para quem quer que tenha prestado um mínimo de atenção. Não é preciso concordar com as regras de Antioch para saber que elas existem; não é preciso colocar Brownmiller em um pedestal para internalizar o fato de que a mulher é um ser humano autônomo, ainda que muitas se sintam desumanizadas e insatisfeitas com os velhos paradigmas. 

O conceito de consentimento prévio não caiu do céu, em outubro de 2017, para confundir homens de boa intenção, mas desastrados; ele foi sendo formado, cuidadosa, ruidosa e publicamente, a um grande custo pessoal para suas proponentes, ao longo de décadas. 

Se você está apavorado porque acha que o #MeToo está indo longe demais, talvez deva começar a pensar em como vem perpetuando a estigmatização do feminismo. 

As discussões sobre consentimento e socialização de gêneros vêm acontecendo todos os dias em que Aziz Ansari já viveu como um ser humano senciente neste planeta. Elas parecem tão estranhas a tantos homens porque esses tantos homens nunca acharam que precisavam prestar atenção. Estupro é coisa de mulher, certo? Homem não sabe tudo sobre essas questões femininas. 

Pode até ser que as regras tenham mudado da noite para o dia, e o que o seu pai chamava de “a emoção da conquista” seja o que hoje o pessoal considere assédio. Infelizmente, ninguém, nem mesmo os muitos homens que se intitulam feministas, quiseram ouvir as mulheres que assim se consideram. Tentamos alertá-los. Pena que vocês não ouviram. 

Lindy West é autora de “Shrill: Notes From a Loud Woman” e contribui com a coluna de opinião.

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