Até que ponto pode chegar a manipulação psicológica?

O Netflix passou a exibir, há algumas semanas, uma mistura de documentário e reality-show chamado “The Push” (“O Empurrão”). Apresentado pelo ilusionista britânico Derren Brown, o programa lança mão de manobras de manipulação psicológica e pressão social para tentar induzir um voluntário insuspeito a empurrar uma pessoa – na verdade, um boneco, mas a pessoa não sabe disso – do alto de um prédio. 

Exibido originalmente no Reino Unido em 2016, com o título “Pushed to the Edge” (“Empurrado Até o Limite”), “The Push” busca justificar-se como uma ilustração didática (e dramática) do poder da conformidade social, e como um alerta para os riscos de se seguir cegamente os comandos da autoridade ou a pressão do grupo. Chocante como é para o público, no entanto, o programa não traz nada que já não apareça na literatura científica sobre psicologia – ou na crônica policial. 

O show começa com um ator telefonando para uma lanchonete e, fazendo-se passar por policial, convencendo o balconista a sequestrar um bebê (na verdade, uma boneca). O “policial” diz que a mulher (uma atriz) que está com a criança é uma criminosa, e que é preciso levar a criança para um lugar seguro antes que a polícia possa agir. O balconista acredita e obedece. 

Fraude 

Embora o fato não seja mencionado no programa, essa “pegadinha” cruel espelha uma série de crimes cometidos nos Estados Unidos entre 1995 e 2004, nos quais um homem não-identificado – mas que às vezes se apresentava como “policial Scott” – ligava para restaurantes ou lanchonetes e dizia, ao funcionário que atendesse ao telefone, que alguma pessoa presente ali era criminosa e precisava ser detida, ou revistada. 

De acordo com levantamento feito pelo diário “The Courier-Journal”, da cidade de Louisville, Kentucky, em pelo menos 70 ocasiões as ordens do “policial Scott” foram obedecidas ao pé da letra, com mulheres – às vezes, não mais que adolescentes – sendo despidas à força por pessoas que acreditavam estar obedecendo a instruções da polícia. Em um caso, a gerente de uma lanchonete, orientada pelo falso policial, despiu-se diante de um cliente que, segundo a voz no telefone, era um estuprador que precisava ser “provocado a agir” antes que os policiais pudessem detê-lo. 

O “Courier-Journal” fez uma reportagem exaustiva sobre esse tipo de fraude porque o Kentucky foi palco do mais trágico – e, até onde se sabe, derradeiro – episódio da série de fraudes: em abril de 2004, na cidade de Mount Washington, um homem sem ficha policial, pai de duas crianças, frequentador assíduo da igreja local e treinador de um time juvenil de beisebol, atendendo às ordens do “policial Scott”, despiu, humilhou e abusou sexualmente de uma “suspeita” de 18 anos. Tudo registrado pela câmera de segurança do local. 

Além do abusador, que acabou condenado, um homem chegou a ser preso, acusado de ser o “policial Scott”, mas foi absolvido pelo júri. O caso deu origem ao filme de suspense “Compliance” (“Conformidade”), lançado em 2012 e dirigido por Craig Zobel.

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Ciência 

“Relativamente poucas pessoas têm os recursos necessários para resistir à autoridade”, escreveu o psicólogo americano Stanley Milgram (1933-1984) em seu hoje clássico livro da década de 70, “Obedience to Authority” (“Obediência à Autoridade”): “Diversas inibições contra a desobediência entram em cena, e mantêm a pessoa no seu lugar”. 

Milgram escreveu o livro como resultado dos experimentos que realizou, em que voluntários eram incentivados, por uma figura de autoridade – um pesquisador de jaleco – a aplicar eletrochoques potencialmente letais em vítimas que imploravam para ser poupadas. 

Os choques não eram reais e o sofrimento das vítimas era fingido, mas os voluntários não sabiam disso. “Quase dois terços dos participantes caíram na categoria de voluntários ‘obedientes’”, relata o pesquisador. “E eram pessoas comuns, administradores, trabalhadores, profissionais”. 

Antes do experimento de Milgram sobre obediência, seu orientador, Solomon Asch (1907-1996), havia conduzido uma série de estudos sobre conformidade social, em que um voluntário era induzido pela pressão do grupo (todos “cúmplices” do cientista) a dar uma resposta obviamente errada a uma pergunta simples e objetiva. Numa bateria de 18 testes, 75% dos voluntários optaram por errar junto com os demais pelo menos uma vez, e 25% se mantiveram fiéis à resposta certa, em todas as circunstâncias. 

Pesquisas posteriores apontaram uma série de fatores que parecem modular a conformidade ao grupo, como o tamanho da maioria, a presença de um aliado também disposto a desafiar os demais e a necessidade de se manifestar na frente dos outros – quando a resposta podia ser dada em particular, a conformidade decrescia.

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A conformidade como vantagem 

Se, quando levada a extremos, a conformidade é capaz produzir resultados sinistros – ou trágicos – em doses moderadas ela pode representar uma das vantagens evolutivas que permitiram à humanidade se espalhar pela Terra. Em seu livro “The Righteous Mind” (“A Mente Justa”, em tradução literal), o psicólogo americano Jonathan Haidt aponta que “somos descendentes de tribalistas bem-sucedidos, não de seus primos mais individualistas”. 

“Poucos animais são ultrassociais”, escreve Haidt, explicando que espécies ultrassociais “vivem em grandes grupos, com uma estrutura interna que permite que todo o grupo se beneficie da divisão do trabalho”. O ser humano, diz ele, é o “único primata ultrassocial”. No mundo animal, escreve o psicólogo, citando o biólogo evolucionista E.O. Wilson, a ultrassociabilidade parece surgir, sempre, da necessidade de defender um “ninho” comum, e o acesso a recursos e alimentos, contra predadores e parasitas. 

“Nas sociedades proto-tribais, indivíduos que achavam difícil seguir o grupo, controlar seus impulsos antissociais e se conformar às principais normas coletivas não teriam sido a primeira escolha de ninguém na hora de pegar um parceiro para caçar, procurar comida ou acasalar”, pondera o autor. “Os primeiros seres humanos domesticaram-se a si mesmos”.

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